O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central se reúne nesta terça e quarta-feira (3 e 4 de novembro) para decidir a taxa Selic, hoje em 13,75% ao ano. Há duas semanas, o mercado dava como quase certo mais um corte de 0,25 ponto. Depois da eleição presidencial e da disparada do dólar, a aposta virou: a maioria agora espera uma pausa no ciclo de cortes. Para o agronegócio, que entrou na safra 2026/27 com crédito mais escasso e inadimplência recorde, essa decisão pesa no custo do dinheiro, no apetite dos bancos e no fôlego de quem precisa renegociar.
Neste artigo, explico o que está em jogo na reunião, por que o cenário mudou tão rápido e o que uma Selic parada em 13,75% significa, na prática, para o crédito rural.
O que o Copom decide nesta semana
A Selic começou 2026 em 15% e caiu 0,25 ponto em cada uma das cinco reuniões desde março, até chegar a 13,75% em setembro. A decisão desta rodada será anunciada na quarta-feira (4), depois do fechamento do mercado. A ata sai na terça-feira seguinte (10) e a última reunião do ano está marcada para 8 e 9 de dezembro.
O que mudou foi a expectativa:
- Antes da eleição: até 23 de outubro, cerca de 76% das opções de Copom negociadas na B3 apontavam para mais um corte, segundo o Termômetro do Copom do Valor Investe.
- Depois da eleição: em 28 de outubro, as mesmas opções indicavam 66,5% de chance de manutenção, segundo a Bloomberg Línea. Em pesquisa da Bloomberg com 18 economistas, 10 passaram a esperar Selic parada em 13,75%.
- Juros futuros: as taxas negociadas para os próximos anos subiram com força, e o mercado praticamente deixou de precificar novos cortes em 2026.
Por que a aposta virou: dólar, inflação e incerteza fiscal
O gatilho foi o câmbio. Na segunda-feira, 26 de outubro, primeiro pregão após a reeleição do presidente Lula, o dólar subiu 8,12% em um único dia. Na sexta-feira (30), fechou a R$ 5,44, com alta de 9,04% na semana, a maior alta semanal desde outubro de 2008, segundo dados do Estadão Conteúdo. Analistas atribuem o movimento ao desmonte de posições de investidores que apostavam em outro resultado, à falta de sinais claros sobre o ajuste das contas públicas a partir de 2027 e a um ambiente externo mais avesso a risco. (Explicamos os efeitos do câmbio no campo em Dólar dispara 8% em um dia: o que a maior alta em 23 anos muda para o agronegócio e no balanço da semana.)
Dólar mais caro pressiona a inflação, e é a inflação que o Copom tem de controlar. O IPCA acumulado em 12 meses estava em 4,58% em setembro, medido antes da eleição. O Boletim Focus de 26 de outubro, ainda sem captar toda a alta do câmbio, projetava IPCA de 5,19% para 2026 e Selic de 13,25% no fim do ano. A edição desta segunda-feira (2) é a primeira a refletir a semana inteira de turbulência e deve ser lida com atenção.
Em resumo: com câmbio mais alto, expectativas de inflação subindo e incerteza fiscal, o espaço do Banco Central para continuar cortando juros diminuiu. É esse o raciocínio por trás da aposta majoritária na pausa.
Selic em 13,75%: o que muda para o crédito rural
À primeira vista, a Selic não mexe nas taxas do Plano Safra. As linhas com juros controlados foram fixadas no anúncio de 30 de junho e valem para toda a safra 2026/27: 12,5% ao ano no custeio empresarial (antes 14%), 9% no Pronamp (antes 10%) e 11,5% no investimento empresarial, entre outras. Mas o efeito chega ao produtor por três caminhos.
1. O crédito a juros livres segue caro
Boa parte do crédito rural hoje não é subsidiada. Estudo do Cepea/Esalq-USP mostra que as fontes privadas com taxas livres, como a Letra de Crédito do Agronegócio (LCA), saltaram de cerca de 5% do crédito rural contratado em 2013 para quase metade em 2023. Essas operações acompanham a Selic. Se a taxa básica para de cair, o custo da LCA, da CPR financeira e do crédito bancário livre também para de cair, e pode subir se o mercado passar a esperar juros altos por mais tempo. (Veja também IOF sobre LCA e CRA: o que a proposta em estudo muda para o crédito rural.)
2. O dinheiro equalizado fica mais disputado
Nas linhas do Plano Safra, o Tesouro paga a diferença entre a taxa cobrada do produtor e o custo de captação do banco. Quanto mais alta a Selic, maior essa conta e mais limitado o volume que cabe no orçamento. Os números do início da safra já mostram aperto:
- Segundo o Ministério da Agricultura (Mapa), de julho a setembro foram contratados R$ 107,1 bilhões, dos quais R$ 50,3 bilhões (46,9%) em CPR, instrumento a juros livres, e R$ 36,4 bilhões em custeio convencional.
- Do crédito com juros equalizados, foram concedidos R$ 20,4 bilhões de R$ 97,6 bilhões programados para essas linhas.
- Levantamento da Ocepar com dados do Banco Central aponta R$ 78,9 bilhões contratados no trimestre, contra R$ 113,5 bilhões no mesmo período da safra anterior: queda de 30,5%.
3. Bancos mais seletivos com o risco
Juros altos por mais tempo também elevam o custo do crédito em atraso para os bancos, que tendem a exigir mais garantias, cadastro limpo e documentação mais robusta. Isso pesa justamente num momento de carteira estressada.
Inadimplência recorde e dívida mais cara
Os dados do Banco Central compilados pelo Cepea mostram o tamanho do problema:
- A inadimplência do crédito rural a pessoas físicas subiu de 0,8% do saldo em dezembro de 2022 para 9,7% em agosto de 2026, recorde da série. Em setembro, recuou para 8,7%, ainda muito acima do histórico.
- A carteira com algum grau de problema (atrasada, renegociada ou prorrogada) somava R$ 205 bilhões em agosto, ou 23,8% do crédito rural.
- As operações a juros livres concentram 77% do saldo em atraso, com inadimplência de 17,6%, contra 3,8% no crédito com juros controlados.
- A taxa média do crédito rural a pessoas físicas subiu de 6,3% ao ano em 2021 para 12,2% em 2025, e a conta anual de juros do setor passou de cerca de R$ 34 bilhões para R$ 99 bilhões.
A leitura do Cepea é que o problema não é só o tamanho da dívida, mas seu custo e sua composição. Uma pausa na Selic não piora esses números de imediato, mas adia o alívio que muitos produtores esperavam para 2027, sobretudo quem tem dívida atrelada ao CDI.
Renegociação e prorrogação ganham peso
Nesse cenário, os instrumentos de renegociação ficam ainda mais relevantes. A Medida Provisória 1.376/2026 está com prazo de adesão perto do fim, e o volume renegociado ainda é pequeno diante do anunciado, como mostramos em MP 1.376: R$ 100 bilhões anunciados, 14% renegociados e 11 dias para o prazo acabar. Para quem teve frustração de safra, a prorrogação prevista no Manual de Crédito Rural continua sendo o caminho regulatório, com as regras atualizadas em 2026 (veja Prorrogação de crédito rural (MCR 2-6-4): o que mudou em 2026).
Em qualquer dessas rotas, o que costuma fazer diferença é a prova: demonstrar com dados técnicos (imagens de satélite, registros climáticos, vistoria de campo e histórico de produtividade) o que de fato aconteceu na lavoura. Num ambiente de juros altos e bancos seletivos, um pedido bem documentado tende a ser analisado com mais objetividade, tanto pelo produtor quanto pela instituição financeira.
Cenários para quarta-feira
- Pausa em 13,75% (cenário mais provável, segundo o mercado): o crédito livre fica estável ou um pouco mais caro, conforme a sinalização do comunicado. O mais importante será o tom: se o Copom indicar juros altos por um período prolongado, os juros futuros tendem a subir mais.
- Corte de 0,25 ponto, para 13,50%: alívio pequeno no custo do crédito, mas com risco de reação negativa do câmbio se o mercado interpretar que o BC está sendo menos rigoroso com a inflação.
- Comunicado mais duro: qualquer sinal de que o próximo passo pode ser alta reforçaria a pressão sobre LCA, CPR e crédito bancário livre no fim da safra de verão.
O que produtores, advogados e gestores devem acompanhar
- O comunicado do Copom na quarta (4) e a ata na terça (10), especialmente as menções a câmbio e expectativas de inflação.
- O Boletim Focus semanal: projeções de Selic para o fim de 2026 e de 2027.
- O ritmo de liberação dos recursos equalizados do Plano Safra e eventuais remanejamentos do Tesouro.
- Os prazos de renegociação da MP 1.376 e a documentação exigida pelos bancos.
- Para quem tem dívida a juros livres: o custo efetivo atrelado ao CDI e a viabilidade de troca por linhas controladas, quando houver enquadramento.
Conclusão
A reunião do Copom desta semana marca o fim, ao menos temporário, da expectativa de juros em queda contínua. Para o agro, isso significa crédito livre caro por mais tempo, recursos equalizados mais disputados e bancos atentos ao risco, num momento de inadimplência ainda elevada. Planejar o fluxo de caixa da safra de verão, conhecer bem as regras de renegociação e prorrogação e manter a documentação técnica da lavoura em ordem são as melhores ferramentas para atravessar esse período.
O Grupo Olivetto é referência nacional em laudos agronômicos e prova técnica para o agronegócio. Produtores, advogados, gerentes de banco e gestores que precisem de apoio técnico podem falar com a nossa equipe.
Enio Ortiz, engenheiro agrônomo, perito e CEO do Grupo Olivetto.
Fontes
- Banco Central do Brasil: calendário do Copom e Boletim Focus (26/10/2026).
- Estadão Conteúdo, via O Liberal: Dólar vai a R$ 5,44 e tem maior alta semanal desde 2008 (30/10/2026).
- Bloomberg Línea e pesquisa Bloomberg com economistas, citadas em Sou Brasília; Termômetro do Copom (Valor Investe).
- CNN Brasil: Governo oficializa Plano Safra 2026/27 empresarial de R$ 525,1 bilhões.
- Mapa, via A Crítica: Crédito rural soma R$ 107,1 bilhões nos primeiros meses da safra 2026/27.
- Ocepar/Banco Central: Crédito rural despenca 30,5% no início da safra 2026/27.
- Cepea/Esalq-USP, via Mais Soja: Inadimplência recorde do crédito rural vem do custo, da composição e da concentração da dívida.
- Pensar Agro, via NX1: Agro chega ao novo governo com produção recorde, dívidas bilionárias e contas a acertar (01/11/2026).
Grupo Olivetto · Laudos e Perícias Agronômicas
Advogado ou produtor: veja em 30 segundos como foi a chuva da safra no município, comparada com a média histórica.
Consultar clima do município Falar com especialista Ver decisões favoráveis com laudos da Olivetto
Comentários
Postar um comentário